TSF: 5- Outros pontos
Março 29, 2008
Desculpem não me recordar dos nomes, até acho que me recordo de alguns, mas podia confundir e trocá-los, por isso melhor não arriscar…
- Confesso que fiquei meio “preocupada”, não sei se é esta a palavra, pelo facto de nos trechos da minha entrevista a maioria dos meus relatos dizerem respeito não à minha fase actual, mas apenas à fase de bordel – justamente porque explicava para a jornalista as diferenças – afinal dava um tom “amargo”. Entretanto depois reflecti e pensei, afinal foi bom aparecer essa parte na reportagem, porque é uma realidade que poucos conhecem, quer dizer, conhecem quando passam de carro e vêem, mas nunca através das vozes e dos desabafos delas. Claro que, para quem não me conhece, fica pensando que o que vivo hoje é ainda o que vivi nos tempos de bordel, mas pronto, esta é uma das consequências de uma reportagem, afinal com os cortes – necessários em função do tempo – nunca dá para passar uma ideia completa.
- Gostei quando aquela senhora disse que tira o tacão e põe o seu chinelo, me soou delicado, afinal é isso, não somos apenas mulheres de saltos altos, mas mulheres comuns como todas as outras.
- Gostei de participar dessa reportagem junto com outras mulheres e com suas vidas que, para alguns, poderá não ser o que queriam ou esperavam, justamente em função da frontalidade de alguns depoimentos. Mas conforme eu já disse, não me sinto inferior ou superior a qualquer mulher que trabalhe nesse ramo, seja ela prostituta ou acompanhante, acho que são mulheres, que são seres humanos e que merecem respeito.
- Suzana: «Hoje não é assim tão difícil, o que não quer dizer que durante o princípio não tenha criado uma série de defesas. Eu danço conforme a música que me dão. » Duro, forte, mas não menos real. Lembro que foi o que tive que aprender em tempos de bordel.
- «A gente afinal não sabe quem recebe», é mais ou menos isso o que disseram muitas, e é isso o que muitos aspirantes a clientes hoje – independente de que tipo de acompanhantes procuram – não sabem ou não conseguem compreender. Inclusive às vezes uma pessoa até pode vir a ser um bom cliente, mas não aceitei atendê-lo porque ele não soube se expressar, porque não me deu a entender se será apenas mais um cliente ou um bom cliente (em consequência de ser uma boa pessoa).
- Jovens nigerianas com documentos espanhóis… no livro do Salas ele fala sobre isso.
- Gostei de quando foi dito que, apesar do que se pensa, de que as mulheres estariam na prostituição apenas por serem drogadas e etc., que grande parte são mães e não são mães piores por causa disso, muito pelo contrário, justamente por serem boas mães que são capazes de até se prostituírem para dar o melhor para os seus filhos, já tinha falado sobre esse assunto no meu livro em função daquilo que via no ambiente.
- Gostei da senhora – acho que foi a Suzana – que usa a expressão “lá no escritório”. Em bordel a gente por vezes também costumava dizer assim. É giro.
- Sim, confesso que me deu um orgulho quando ouvi uma senhora a dizer “eu alugo o meu corpo”. Para quem me conhecia apenas pelo blog e conhecia apenas as minhas experiências actuais, sabendo muito pouco do que passei em tempos de bordel, até discordou comigo quando apareci com o meu livro com esse título, “Alugo o Meu Corpo”, ainda mais hoje quando alugo o meu tempo, quando o cliente apenas me recompensa por este tempo, e o resto é dado de graça para ele. «Você constrói relações», me disse uma pessoa indignada com o título do meu livro, porque não sabia que era de um outro tempo – e de um outro tipo de bagagem, cenários e condições – que eu falava nesse livro. Porque enquanto prostituta de bordel eu alugava o meu corpo sim, mas não o vendia nem me vendia, e vocês não podem imaginar o que é, para uma mulher que vive a dureza que pode proporcionar essa parte do mercado – estamos falando de prostituição, não de acompanhamento – saber disso, tomar consciência disso, ou seja, de que pode ser prostituta sim, de que pode entregar o seu corpo, por vezes sem vontade, sim, mas que o aluga, não o vende, porque depois o corpo volta a ser dela, só dela. Vocês talvez não imaginem a força que esse título tem – por isso o escolhi – para uma mulher que, afinal, por todos os lados encontra pessoas que parecem lhe dizer que ela não é dona do seu próprio corpo. Quando escolhi esse título eu pensei em algo que transmitisse coragem, e coragem foi o que encontrei no tom da mulher que disse “eu alugo o meu corpo”, coragem e amor-próprio, o que é muito necessário para enfrentar os desafios da actividade.
- Torço para que um dia essas mulheres possam ser acompanhantes independentes, porque não penso que, apenas pelo facto de estarem nas ruas, faça com que sejam – como já disse – melhores ou piores que quaisquer outras. Tudo na vida se aprende. É claro que ser acompanhante requer uma série de posturas, mas não creio que elas não sejam capazes disso, afinal tem muita gente que “virou acompanhante do nada”, sem saber nada, então o que não pode saber uma mulher que já está há 15, 20 anos na actividade? Mas acima de tudo torço para que sejam felizes.