Essa foi uma parte que com certeza não entendi bem. Não entendi qual foi a causa de uma senhora dizer que não conseguiu arrendar a casa em seu nome, talvez tenha sido por causa do corte que fiquei sem essa resposta, porque até agora estou aqui tentando adivinhar a causa e não sei, não sei mesmo.  Sei que parece que ouvi que ela disse que precisou que uma pessoa arrendasse uma casa para ela porque com o seu nome não conseguia, e esse depoimento entrou numa parte em que se falava dos benefícios que as prostitutas teriam se fossem legalizadas.

Eu por exemplo, por não ser portuguesa, devia ter muitas dificuldades para arrendar um apartamento. Por quê? Para começar porque se sabe que pelo menos 60, 70 ou 80% do mercado é de brasileiras – por isso até achei estranho não haver mais entrevistas com brasileiras – ou seja, alguém quando vai alugar um apartamento para uma brasileira logo tem receio de que ela seja prostituta, de que tenha más clientes, de que haja confusão e escândalos, de que os clientes sejam agressivos, etc., etc. E eu te digo, conheço muitos brasileiros – homens ou mulheres – que ligam para um anúncio de um apartamento e o dono diz na lata: “Não alugo para brasileiros”. Isso por causa da má fama – uns fazem, outros pagam – afinal é indiscutível, sei de umas coisas que alguns fazem aqui que Deus me livre. Já conheci alguns que gostam de brigas e confusões. Já conheci alguns que, ao arrendar um apartamento mobilado, depois vão embora e levam todas as mobílias como se fossem suas. Houve uma época em que os Bancos eram mais flexíveis e até emprestavam dinheiro para brasileiros. Agora vai ver se não fazem uma longa pesquisa antes de dizer sim ou não ao crédito? Porque eu fiquei sabendo, teve muito brasileiro que pegava dinheiro no Banco e depois sumia no mundo. Numa agência me disseram que os brasileiros gostam de ouvir música alta e de dar muitas festas, porque têm sempre muitos amigos. Ui, é tanta coisa…

Sei que é normal, para arrendar um apartamento, que se peça um caução ou por vezes um fiador. Todo mundo que vende ou aluga alguma coisa quer ter uma garantia, claro. Até a prostituta, quando vai com um cliente, quer que ele pague. A acompanhante, quando aceita um cliente, pede que traga a “prenda” num envelope branco, e que entregue esse envelope assim que chega. Por que então o dono de um apartamento ou uma imobiliária não possa fazer da mesma forma?

Quando me mudei para Lisboa, por exemplo, se vocês se lembram eu estava toda arrebentada em função do assalto seguido de agressão que sofri no meu apartamento na Zona Centro. Pois é, quando atendia clientes isso não acontecia, bastou estar num dia de folga para acontecer. Mas então… eu estava toda arrebentada, toda cheia de nódoas roxas no corpo, inclusive em partes visíveis – queixo e pescoço – e podiam me recusar justamente por desconfiar que era prostituta e que tinha clientes violentos. Mas não. A minha dificuldade maior era que eu tinha pressa, tinha muita pressa de arrendar um apartamento, e além disso precisava de um apartamento numa boa localização e que tivesse alguns pré-requisitos, não precisava ser um óptimo apartamento, mas um lugar discreto sem ser inacessível.

Inicialmente era até necessário um fiador, e o “Publicitário” até tinha se oferecido de ser um dos meus fiadores. Entretanto, no dia que fui assinar o contrato, decidiram que afinal não era assim tão necessário, e o contrato foi feito. Por quê? Porque além da minha postura – mostrando quem eu realmente sou, uma pessoa séria, nunca dei “calote” em ninguém e não era agora que iria dar – eu também me mostrei disponível para dar uma série de referências que fossem necessárias a meu respeito. Sim, notei desde o princípio que a nacionalidade era um “problema”, mas compreendi que, afinal, eles não me conheciam de lado nenhum e por isso não tinham motivos para confiar em mim de olhos fechados, e então com a conversa, com a frontalidade, e inclusive me mostrando disponível para dar garantias de que não era uma caloteira que me aceitaram, afinal não tinham razões para não me aceitar.

Mas é conforme disse, não entendi a razão, ainda mais sendo no Porto, onde é muito mais fácil arrendar um apartamento do que em Lisboa. Em Braga então, mais fácil ainda… Mas pronto, não sei.