Eu acho que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas pronto, é só a minha opinião. Acho inclusive que, se eu for legalizada enquanto prostituta – claro, para começar vou ter que atender um número maior de clientes, vou ter que pagar impostos enquanto a prostituta que não sou e portanto ter que pensar em “render” – que uma pessoa não vai querer me alugar um apartamento, com medo da confusão, da má fama do apartamento, do estigma, do que pode representar para os vizinhos, etc.  Porque enquanto só o dono do apartamento ou a imobiliária sabem – quando sabem – é uma coisa, outra coisa é terem certeza, é a cidade inteira saber.

Ainda não sei a razão de algumas pessoas quererem o título de prostitutas. Para pagar impostos e ter benefícios? E não há outras formas de pagarem impostos e terem benefícios, sem, basicamente, exporem as suas vidas privadas? Por exemplo, porque tenho formação em massagem, posso ir nas Finanças e me registar como trabalhadora independente, igual às pessoas que conheci no meu curso de massagem terapêutica e que não trabalham em nenhuma clínica de estética, mas apenas para si próprias, fazendo massagem em casa ou a domicílio, e não, não são acompanhantes (e pagar o IRS todo ano, e fazer as minhas contribuições à Segurança Social, etc.). Alguém pode dizer que não fiz a massagem se realmente fiz, e se inclusive até formação em massagem tenho? O que recebi do cliente, portanto, foi pela massagem, não pelo sexo, afinal este só fiz se decidi fazer, se ele também quis fazer, não acho que é da conta de ninguém se fiz ou se não fiz sexo, com quem fiz ou deixei de fazer. (E até se não houvesse a massagem… Há algum problema se uma pessoa for por exemplo numa clínica de estética, pagar pela massagem mas preferir fazer alguma outra coisa, conversar ou apenas ficar deitado a relaxar?) Mas nem todas têm formação em massagem – alguém me diz. Mas não tem nenhuma outra actividade que se encaixe? Não vou dar dicas nesse aspecto porque, quando uma pessoa quer mesmo uma coisa ela corre atrás, não opta pela solução que parece mais prática nem fica esperando essa única solução que não tem garantia de acontecer. Mas uma amiga, por exemplo, escolheu um CAE que tem a ver com ela e que nem foge ao acompanhamento, apesar de não estar escrito “acompanhante”. É inclusive uma profissão que também apresenta oscilações, assim como o acompanhamento, ou seja, há épocas em que se ganha mais ou menos.

O que vejo por aí são depoimentos de pessoas “queria poder pagar impostos para poder ter benefícios, mas a minha actividade não é legalizada”… E aí você me diz: “Mas se uma pessoa regista uma empresa, e se não consta nessa empresa que ela é acompanhante, ela não vai sonegar impostos?”. E eu te respondo com outra pergunta: “E o cliente vai querer uma factura por ter feito sexo com uma prostituta, vai querer dar o seu nome e o seu número de contribuinte?”. E eu te faço outra pergunta, “E de repente não vão aparecer aquelas pessoas a dizer ‘com factura ou sem factura? se for um programinha com factura é 60, se for sem factura é 50′?”

Acho muito mais honesto quem vai e se regista da forma que lhe parece possível, e assim paga os impostos, e assim faz as contribuições necessárias, do que quem reclama, por vezes – por vezes – usando como desculpa, como uma forma de vitimização.

Eu nem estou no Brasil, mas posso, mesmo estando aqui, se quiser, fazer as minhas contribuições todo mês para depois ter a minha aposentadoria. Gente, o problema na verdade não é quando você sonega, quando você não paga? Alguém vai reclamar por você, afinal, estar pagando?

Um defeito que têm as pessoas muito jovens – como eu – é de não pensarem no futuro a longo prazo, só penso a curto e a médio, mas o futuro que um dia chega rapidinho. Eu, por exemplo, há certas coisas que pago – e que não tinha obrigação de pagar – mas sou sincera, nem é pensando no futuro, pago apenas para que ninguém possa jogar na minha cara que não paguei.

Opções não faltam, as pessoas que estão acostumadas a seguir os mesmos moldes.

Além disso é um acto voluntário. Se uma pessoa desconta mais ou se desconta menos, ela sabe que disso vai depender o seu futuro, ou seja, o problema vai ser dela, assim como é um interesse dela saber o que planta hoje para colher amanhã.