Quando somos incompatíveis – Parte Final
Setembro 1, 2008
Olha, nunca escondi, o tempo dos bordéis não foi nada bom. Sem humanidade, sem ternura, sem carinho. Mas depois vi que havia homens que eram diferentes, e que poderia me dedicar apenas a estes homens, estes que sempre gostei de atender, sem falsidade. Não são muitos, mas estes homens existem! Acho que ninguém gosta de ficar apanhando ou sendo maltratado porque se acostumou com isso. Pelo contrário, a gente gosta é de se acostumar com as coisas boas. Então tanto eu quanto as minhas amigas, nos acostumamos com isso sim, com homens que gostam de nos paparicar, que nos tratam como deusas, como rainhas, como pessoas queridas. (Que é a forma que, afinal, o homem devia tratar toda a mulher. Não por ser mulher; estou dizendo que, se uma pessoa quer receber essa mesma atenção, ela também deve dar esse tipo de tratamento.) E se há esses homens que gostam de nos tratar tão bem, por que então nos dedicaríamos a atender aqueles que vão nos tratar como mais uma, ou como qualquer uma, ou menos que isso?
Se eu estivesse num bordel, eu era mais uma para aquele homem, mas ele também só seria mais um homem para mim numa noite de trabalho. Mas não estou num bordel, e o que proponho não é fazer o mesmo que num bordel. O problema é que, por teimosia ou por vaidade, há homem que não entende isso. Ou não se preocupa em ler correctamente as informações antes de pensar em me procurar achando que é tudo igual, é tudo a mesma coisa, ou acha que, quando ele chegar aqui, vou mudar todas as condições só por causa dele…
Não é isso. Atendo pessoas maravilhosas, graças a Deus. Pessoas que vêm buscar por uma relação humana. Pessoas tão humanas que por vezes até me emociono com elas. E há entre nós isso, essa frontalidade, essa abertura, esse bem-querer mútuos. Porque essa pessoa que recebo não é apenas mais uma, como eu também não sou apenas mais uma para essa pessoa.
Não estando num bordel e também não sendo uma “casa de convívio”, obviamente nada é igual ao bordel ou à casa de convívio. Ele não entendeu isso, possivelmente por estar habituado com outros esquemas. Disse achar estranhas as minhas exigências, o facto eu por exemplo não fornecer logo o número da porta. Mas é assim mesmo. A questão é que, se estivesse numa “casa de convívio”, a rotina era passar o dia inteiro “esperando cliente”. Enquanto amante profissional não é assim, e discrição é tudo. Enquanto amante profissional preciso preparar uma série de estruturas antes desse encontro. Nem existe um “onde eu atendo”. Há pessoas que eu decida atender num local, outras que eu decida receber em outro, e é tudo preparado de forma muito organizada. A questão é que, justamente por saber que muitos homens estão acostumados com “casas de convívio” – chegou, tocou a campainha, entrou – que os meus cuidados devem ser redobrados. Quem também não procura por um extremo sigilo, também não deveria me procurar… É engraçado o homem querer sigilo da parte dele – nesse caso falando do facto de ele ter se recusado a me dar o seu endereço de e-mail – mas não se preocupar com o sigilo da acompanhante…
A vida é um espelho, já cansei de dizer isso. Uma pessoa que me procura, procura por um momento especial, por sentir algo especial, e não por ter apenas “mais um momento”. A questão é que não tenho como oferecer algo especial quando essa pessoa também não busca por algo especial, mas por apenas mais uma acompanhante e por apenas mais um momento. Se der algo especial para alguém que não busca algo especial, estarei no máximo sendo hipócrita, babando o ovo apenas por causa de alguns trocados, fazendo um serviço mecânico. E acho que nem essa pessoa merece tanta hipocrisia. Ela até preferia a hipocrisia do que a minha frontalidade, mas não merece a hipocrisia não, até porque ela precisa ver – e infelizmente tenho que ser eu a mostrar isso – que há coisas que não se compram, que as pessoas são pessoas, não objectos que elas usam, manipulam, jogam fora. Se uma pessoa não quer ser objecto da outra, a primeira coisa a ser feita é, na verdade, não se comportar fazendo a outra de objecto.
É muito mais honesto então o homem procurar uma prostituta. O acordo feito será esse, ele estará pagando e ela vai dar a ele o que quer. Também com regras, claro, porque não é toda prostituta que dá tudo ou que faz tudo. Mas pronto, há ali um acordo que não envolve emoções ou sentimentos, ela faz o serviço, ele vai embora. Outra coisa é um homem procurar uma amante profissional – ou mesmo nas suas relações pessoais, procurar por exemplo uma pessoa a quem chama de namorada – quando o que ele quer é uma prostituta, alguém para fazer o que ele quer.
Já falei sobre isso, sobre não ser fácil ser amante profissional. Porque enquanto amante profissional não dou o que o homem quer, ou o que ele acha que quer, mas aquilo que ele realmente precisa. Não seria possível ser amante profissional se eu não tivesse experiência e conhecimento suficientes para saber exactamente o que ele precisa, e se ele duvida disso, da minha experiência e do meu conhecimento, também não deveria me procurar, porque é justamente isso também o que busca aquele que me procura, a minha experiência e o meu conhecimento.
E o que ele precisa, tenho que dizer, não é obrigatoriamente o que ele quer ou o que ele acha que quer. Já contei uma história por exemplo de um homem que não precisava de mim, mas de resolver a sua situação com a esposa. Ele estava fazendo tudo errado me procurando. Ele deve me procurar quando estar comigo vai acrescentar algo, não subtrair. Precisa estar preparado para me procurar, haver algo dentro dele buscando por isso. E quanto a estar preparado, não depende do seu estado físico ou civil, mas do seu estado psicológico, emocional, espiritual inclusive. Enquanto prostituta, faria sexo com ele e pronto. Enquanto amante profissional, analiso todo o cenário e vejo o que é melhor para ele. No caso desse homem, o que ele precisava fazer era voltar para casa o mais imediatamente possível e dizer para a mulher o quanto a amava. Não era a mim que ele precisava dizer que a amava, mas a ela! E foi o que eu fiz, orientei-o. Perdi um cliente? Perdi. Perdi futuros “trocados”? Perdi. Mas ser amante profissional é exactamente isso, não é dar um peixe, é ensinar a pescar, não é oferecer um momento, mas todos os outros pela frente.