Fui citada agora novamente num artigo para o Paraíba: Garotas de programa estão mais recatadas na tv.

Ainda vou cumprir aquela promessa de reproduzir o texto (enorme) que mandei para a jornalista da agência TVPress sobre as garotas de programa da ficção. Achei legal porque neste artigo (link acima), foi citada a Malu Mader, que foi mesmo – não me parece que outra actriz o tenha feito – a actriz que mais interpretou garotas de programa na ficção, falou da memorável Capitu da Giovana – que mostrou que também garotas de classe média e alta fazem programa -, da Hilda da Ana Paula – dediquei alguns posts à minissérie, fantástica – e da Nazaré Tedesco, muito bem interpretada pela Renata Sorrah.

Última entrevista recente

Março 29, 2008

Uma coisa que esqueci de falar… Aquela minha amiga do Porto afinal não aceitou mesmo dar a reportagem. É o que ela me disse, prefere estar discreta no canto dela, com os clientes dela, e eu concordei, afinal foi o que lhe disse, tem que fazer o que acha melhor para ela.

Outra coisa que esqueci de falar… Essa entrevista que dei para a TSF foi a última das recentes. Conforme disse antes, a Alexandra tinha me contactado há mais de um ano atrás me falando sobre essa ideia dessa reportagem, e depois voltou a me contactar (se não me engano em Dezembro), a seguir falamos em Janeiro ou em Fevereiro, ela veio do Porto até aqui, muito querida.

Agora não tenho os arquivos dos posts para me salvarem a memória fraca, mas sei que nessa mesma altura – sem que um veículo soubesse do outro – estava rolando aquela entrevista para o Canal MOV e aquela participação ao vivo ao lado da Soraia Chaves na TVI.

Mas depois disso decidi que não aceitaria mais nenhum convite da imprensa, pelo menos por um tempo, só aceitei encontrar com o Nuno da Sábado – para conversar – porque, como tinha feito o prefácio do Antonio Salas, ou seja, tinha escrito sobre o livro, também poderia falar sobre ele, não ia recusar de divulgar um livro que gostei e que afinal até fiz o prefácio, aliás, foi na Editora que me perguntaram se estaria disponível para falar do livro do Salas.

O que quero dizer é que, quando o foco é a prostituição ou o acompanhamento, por enquanto estou dando um tempo, ou seja, não ando aceitando convites. Isso porque, vocês podem pensar que não, mas quando se fala muito num tema acaba por se deixar cair na apelação e na vulgarização, e por isso é necessário deixar esquecer um pouco. Eu nem pensava em aceitar o convite da Alexandra, porque quando se tornou concreto e com data marcada eu já estava sabendo das outras duas situações na imprensa, mas aceitei porque ela me mostrou que tinha a ideia de fazer um trabalho sério, mas também, principalmente, porque afinal ela já tinha me contactado há mais de um ano.

Isso não quer dizer que não aceite colaborar anonimamente – sem o nome “Paula Lee”  e sem a assinatura “amanteprofissional.com” – com algumas pessoas, principalmente se vejo empenho e seriedade. Nos últimos tempos, por exemplo, fui contactada por duas mulheres que estão fazendo trabalhos relacionados com o tema, o trabalho de uma delas por exemplo tem o foco nas DSTs (doenças sexualmente transmissíveis, achei interessantíssimo) e já colaborei com muitos outros trabalhos assim, não me canso de mandar textos enormes respondendo perguntas.

Se estou falando sobre isso agora é porque sei que aqui em Portugal – e possivelmente em toda parte do mundo, não sei, deve ser – quando você dá uma entrevista começa a aparecer mais um número enorme de propostas para falar da mesma coisa ou de outra coisa quase igual. Por isso, ao recusar o convite, não pense que é algo pessoal ou contra o seu profissionalismo ou veículo, mas simplesmente, quando o foco tem alguma “receptividade” perante o público - seja a prostituição, o acompanhamento, o sexo, etc. – se aceitasse sempre falar do assunto, ao invés de melhorar o sector ou a actividade, acabaria por fazer disso um circo, algo apelativo, ia chegar uma hora e todo mundo ia enjoar do assunto, ou inclusive – independente do que diga ou do que apareça no seu veículo – causar aquele ar chateado, “ai, meu Deus, de novo sobre isso? Não há outro assunto não? Não há outras coisas para se falar? Tem sempre que vir uma matéria sobre a prostituição ou sobre o acompanhamento, como se mais ninguém nesse país tivesse alguma coisa para dizer?”, e, mesmo que não me prejudique, eu poderia estar, sem querer, prejudicando o sector.

Tenho consciência de que o meu ramo de actividade depende em muito da discrição. O facto de ter dado algumas entrevistas, de escrever gratuita e incansavelmente no meu blog sobre o assunto não é com o intuito de quebrar com essa discrição, mas justamente o contrário, fazer com que as pessoas percebam a necessidade dessa discrição, que percebam a parte humana, fazer com que se possa melhorar as relações humanas, etc. Mas tenho consciência de que o peso na imprensa é outro, até porque, num blog, uma pessoa pode escrever o dia todo sobre mil assuntos, enquanto na imprensa o assunto é aquele entre outros e aquele naquele dia porque alguém decidiu que assim fosse, e por isso centraliza-se mais, ganha-se mais importância, e por isso tenho que pensar muito antes, mas por enquanto é o que falei, acho melhor dar um tempo.

Eu acho que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas pronto, é só a minha opinião. Acho inclusive que, se eu for legalizada enquanto prostituta – claro, para começar vou ter que atender um número maior de clientes, vou ter que pagar impostos enquanto a prostituta que não sou e portanto ter que pensar em “render” – que uma pessoa não vai querer me alugar um apartamento, com medo da confusão, da má fama do apartamento, do estigma, do que pode representar para os vizinhos, etc.  Porque enquanto só o dono do apartamento ou a imobiliária sabem – quando sabem – é uma coisa, outra coisa é terem certeza, é a cidade inteira saber.

Ainda não sei a razão de algumas pessoas quererem o título de prostitutas. Para pagar impostos e ter benefícios? E não há outras formas de pagarem impostos e terem benefícios, sem, basicamente, exporem as suas vidas privadas? Por exemplo, porque tenho formação em massagem, posso ir nas Finanças e me registar como trabalhadora independente, igual às pessoas que conheci no meu curso de massagem terapêutica e que não trabalham em nenhuma clínica de estética, mas apenas para si próprias, fazendo massagem em casa ou a domicílio, e não, não são acompanhantes (e pagar o IRS todo ano, e fazer as minhas contribuições à Segurança Social, etc.). Alguém pode dizer que não fiz a massagem se realmente fiz, e se inclusive até formação em massagem tenho? O que recebi do cliente, portanto, foi pela massagem, não pelo sexo, afinal este só fiz se decidi fazer, se ele também quis fazer, não acho que é da conta de ninguém se fiz ou se não fiz sexo, com quem fiz ou deixei de fazer. (E até se não houvesse a massagem… Há algum problema se uma pessoa for por exemplo numa clínica de estética, pagar pela massagem mas preferir fazer alguma outra coisa, conversar ou apenas ficar deitado a relaxar?) Mas nem todas têm formação em massagem – alguém me diz. Mas não tem nenhuma outra actividade que se encaixe? Não vou dar dicas nesse aspecto porque, quando uma pessoa quer mesmo uma coisa ela corre atrás, não opta pela solução que parece mais prática nem fica esperando essa única solução que não tem garantia de acontecer. Mas uma amiga, por exemplo, escolheu um CAE que tem a ver com ela e que nem foge ao acompanhamento, apesar de não estar escrito “acompanhante”. É inclusive uma profissão que também apresenta oscilações, assim como o acompanhamento, ou seja, há épocas em que se ganha mais ou menos.

O que vejo por aí são depoimentos de pessoas “queria poder pagar impostos para poder ter benefícios, mas a minha actividade não é legalizada”… E aí você me diz: “Mas se uma pessoa regista uma empresa, e se não consta nessa empresa que ela é acompanhante, ela não vai sonegar impostos?”. E eu te respondo com outra pergunta: “E o cliente vai querer uma factura por ter feito sexo com uma prostituta, vai querer dar o seu nome e o seu número de contribuinte?”. E eu te faço outra pergunta, “E de repente não vão aparecer aquelas pessoas a dizer ‘com factura ou sem factura? se for um programinha com factura é 60, se for sem factura é 50′?”

Acho muito mais honesto quem vai e se regista da forma que lhe parece possível, e assim paga os impostos, e assim faz as contribuições necessárias, do que quem reclama, por vezes – por vezes – usando como desculpa, como uma forma de vitimização.

Eu nem estou no Brasil, mas posso, mesmo estando aqui, se quiser, fazer as minhas contribuições todo mês para depois ter a minha aposentadoria. Gente, o problema na verdade não é quando você sonega, quando você não paga? Alguém vai reclamar por você, afinal, estar pagando?

Um defeito que têm as pessoas muito jovens – como eu – é de não pensarem no futuro a longo prazo, só penso a curto e a médio, mas o futuro que um dia chega rapidinho. Eu, por exemplo, há certas coisas que pago – e que não tinha obrigação de pagar – mas sou sincera, nem é pensando no futuro, pago apenas para que ninguém possa jogar na minha cara que não paguei.

Opções não faltam, as pessoas que estão acostumadas a seguir os mesmos moldes.

Além disso é um acto voluntário. Se uma pessoa desconta mais ou se desconta menos, ela sabe que disso vai depender o seu futuro, ou seja, o problema vai ser dela, assim como é um interesse dela saber o que planta hoje para colher amanhã.

Essa foi uma parte que com certeza não entendi bem. Não entendi qual foi a causa de uma senhora dizer que não conseguiu arrendar a casa em seu nome, talvez tenha sido por causa do corte que fiquei sem essa resposta, porque até agora estou aqui tentando adivinhar a causa e não sei, não sei mesmo.  Sei que parece que ouvi que ela disse que precisou que uma pessoa arrendasse uma casa para ela porque com o seu nome não conseguia, e esse depoimento entrou numa parte em que se falava dos benefícios que as prostitutas teriam se fossem legalizadas.

Eu por exemplo, por não ser portuguesa, devia ter muitas dificuldades para arrendar um apartamento. Por quê? Para começar porque se sabe que pelo menos 60, 70 ou 80% do mercado é de brasileiras – por isso até achei estranho não haver mais entrevistas com brasileiras – ou seja, alguém quando vai alugar um apartamento para uma brasileira logo tem receio de que ela seja prostituta, de que tenha más clientes, de que haja confusão e escândalos, de que os clientes sejam agressivos, etc., etc. E eu te digo, conheço muitos brasileiros – homens ou mulheres – que ligam para um anúncio de um apartamento e o dono diz na lata: “Não alugo para brasileiros”. Isso por causa da má fama – uns fazem, outros pagam – afinal é indiscutível, sei de umas coisas que alguns fazem aqui que Deus me livre. Já conheci alguns que gostam de brigas e confusões. Já conheci alguns que, ao arrendar um apartamento mobilado, depois vão embora e levam todas as mobílias como se fossem suas. Houve uma época em que os Bancos eram mais flexíveis e até emprestavam dinheiro para brasileiros. Agora vai ver se não fazem uma longa pesquisa antes de dizer sim ou não ao crédito? Porque eu fiquei sabendo, teve muito brasileiro que pegava dinheiro no Banco e depois sumia no mundo. Numa agência me disseram que os brasileiros gostam de ouvir música alta e de dar muitas festas, porque têm sempre muitos amigos. Ui, é tanta coisa…

Sei que é normal, para arrendar um apartamento, que se peça um caução ou por vezes um fiador. Todo mundo que vende ou aluga alguma coisa quer ter uma garantia, claro. Até a prostituta, quando vai com um cliente, quer que ele pague. A acompanhante, quando aceita um cliente, pede que traga a “prenda” num envelope branco, e que entregue esse envelope assim que chega. Por que então o dono de um apartamento ou uma imobiliária não possa fazer da mesma forma?

Quando me mudei para Lisboa, por exemplo, se vocês se lembram eu estava toda arrebentada em função do assalto seguido de agressão que sofri no meu apartamento na Zona Centro. Pois é, quando atendia clientes isso não acontecia, bastou estar num dia de folga para acontecer. Mas então… eu estava toda arrebentada, toda cheia de nódoas roxas no corpo, inclusive em partes visíveis – queixo e pescoço – e podiam me recusar justamente por desconfiar que era prostituta e que tinha clientes violentos. Mas não. A minha dificuldade maior era que eu tinha pressa, tinha muita pressa de arrendar um apartamento, e além disso precisava de um apartamento numa boa localização e que tivesse alguns pré-requisitos, não precisava ser um óptimo apartamento, mas um lugar discreto sem ser inacessível.

Inicialmente era até necessário um fiador, e o “Publicitário” até tinha se oferecido de ser um dos meus fiadores. Entretanto, no dia que fui assinar o contrato, decidiram que afinal não era assim tão necessário, e o contrato foi feito. Por quê? Porque além da minha postura – mostrando quem eu realmente sou, uma pessoa séria, nunca dei “calote” em ninguém e não era agora que iria dar – eu também me mostrei disponível para dar uma série de referências que fossem necessárias a meu respeito. Sim, notei desde o princípio que a nacionalidade era um “problema”, mas compreendi que, afinal, eles não me conheciam de lado nenhum e por isso não tinham motivos para confiar em mim de olhos fechados, e então com a conversa, com a frontalidade, e inclusive me mostrando disponível para dar garantias de que não era uma caloteira que me aceitaram, afinal não tinham razões para não me aceitar.

Mas é conforme disse, não entendi a razão, ainda mais sendo no Porto, onde é muito mais fácil arrendar um apartamento do que em Lisboa. Em Braga então, mais fácil ainda… Mas pronto, não sei.

TSF: 6- Escapes

Março 29, 2008

Falei dos escapes, mas não expliquei que os escapes são necessários para qualquer pessoa de qualquer outro tipo de actividade profissional.

Do escape que falava na reportagem era também relacionado com os tempos de bordel, aliás, falei sobre esses “escapes” no livro, eram necessários porque, caso contrário, você se entrega a tudo de ruim e deixa de ter amor-próprio.

Mas há escapes que precisamos até quando gostamos da nossa actividade. Todo mundo precisa. Hobbies, por exemplo, são indispensáveis.

O meu “escape” hoje é a escrita, a leitura e a música, porque é o que mais gosto de fazer. Mas não é apenas para tentar me livrar de coisas ou sentimentos ruins, ou de problemas, mas inclusive para me renovar. A gente às vezes precisa se dar esse presente, inclusive para podermos estar mais presentes com o outro.

TSF: 5- Outros pontos

Março 29, 2008

Desculpem não me recordar dos nomes, até acho que me recordo de alguns, mas podia confundir e trocá-los, por isso melhor não arriscar…

- Confesso que fiquei meio “preocupada”, não sei se é esta a palavra, pelo facto de nos trechos da minha entrevista a maioria dos meus relatos dizerem respeito não à minha fase actual, mas apenas à fase de bordel – justamente porque explicava para a jornalista as diferenças – afinal dava um tom “amargo”. Entretanto depois reflecti e pensei, afinal foi bom aparecer essa parte na reportagem, porque é uma realidade que poucos conhecem, quer dizer, conhecem quando passam de carro e vêem, mas nunca através das vozes e dos desabafos delas. Claro que, para quem não me conhece, fica pensando que o que vivo hoje é ainda o que vivi nos tempos de bordel, mas pronto, esta é uma das consequências de uma reportagem, afinal com os cortes – necessários em função do tempo – nunca dá para passar uma ideia completa.

- Gostei quando aquela senhora disse que tira o tacão e põe o seu chinelo, me soou delicado, afinal é isso, não somos apenas mulheres de saltos altos, mas mulheres comuns como todas as outras.

- Gostei de participar dessa reportagem junto com outras mulheres e com suas vidas que, para alguns, poderá não ser o que queriam ou esperavam, justamente em função da frontalidade de alguns depoimentos. Mas conforme eu já disse, não me sinto inferior ou superior a qualquer mulher que trabalhe nesse ramo, seja ela prostituta ou acompanhante, acho que são mulheres, que são seres humanos e que merecem respeito.

- Suzana: «Hoje não é assim tão difícil, o que não quer dizer que durante o princípio não tenha criado uma série de defesas. Eu danço conforme a música que me dão. » Duro, forte, mas não menos real. Lembro que foi o que tive que aprender em tempos de bordel.

- «A gente afinal não sabe quem recebe», é mais ou menos isso o que disseram muitas, e é isso o que muitos aspirantes a clientes hoje – independente de que tipo de acompanhantes procuram – não sabem ou não conseguem compreender. Inclusive às vezes uma pessoa até pode vir a ser um bom cliente, mas não aceitei atendê-lo porque ele não soube se expressar, porque não me deu a entender se será apenas mais um cliente ou um bom cliente (em consequência de ser uma boa pessoa).

- Jovens nigerianas com documentos espanhóis… no livro do Salas ele fala sobre isso.

- Gostei de quando foi dito que, apesar do que se pensa, de que as mulheres estariam na prostituição apenas por serem drogadas e etc., que grande parte são mães e não são mães piores por causa disso, muito pelo contrário, justamente por serem boas mães que são capazes de até se prostituírem para dar o melhor para os seus filhos, já tinha falado sobre esse assunto no meu livro em função daquilo que via no ambiente.

- Gostei da senhora – acho que foi a Suzana – que usa a expressão “lá no escritório”. Em bordel a gente por vezes também costumava dizer assim. É giro.

- Sim, confesso que me deu um orgulho quando ouvi uma senhora a dizer “eu alugo o meu corpo”. Para quem me conhecia apenas pelo blog e conhecia apenas as minhas experiências actuais, sabendo muito pouco do que passei em tempos de bordel, até discordou comigo quando apareci com o meu livro com esse título, “Alugo o Meu Corpo”, ainda mais hoje quando alugo o meu tempo, quando o cliente apenas me recompensa por este tempo, e o resto é dado de graça para ele. «Você constrói relações», me disse uma pessoa indignada com o título do meu livro, porque não sabia que era de um outro tempo – e de um outro tipo de bagagem, cenários e condições – que eu falava nesse livro. Porque enquanto prostituta de bordel eu alugava o meu corpo sim, mas não o vendia nem me vendia, e vocês não podem imaginar o que é, para uma mulher que vive a dureza que pode proporcionar essa parte do mercado – estamos falando de prostituição, não de acompanhamento – saber disso, tomar consciência disso, ou seja, de que pode ser prostituta sim, de que pode entregar o seu corpo, por vezes sem vontade, sim, mas que o aluga, não o vende, porque depois o corpo volta a ser dela, só dela.  Vocês talvez não imaginem a força que esse título tem – por isso o escolhi – para uma mulher que, afinal, por todos os lados encontra pessoas que parecem lhe dizer que ela não é dona do seu próprio corpo. Quando escolhi esse título eu pensei em algo que transmitisse coragem, e coragem foi o que encontrei no tom da mulher que disse “eu alugo o meu corpo”, coragem e amor-próprio, o que é muito necessário para enfrentar os desafios da actividade.

- Torço para que um dia essas mulheres possam ser acompanhantes independentes, porque não penso que, apenas pelo facto de estarem nas ruas, faça com que sejam – como já disse – melhores ou piores que quaisquer outras. Tudo na vida se aprende. É claro que ser acompanhante requer uma série de posturas, mas não creio que elas não sejam capazes disso, afinal tem muita gente que “virou acompanhante do nada”, sem saber nada, então o que não pode saber uma mulher que já está há 15, 20 anos na actividade? Mas acima de tudo torço para que sejam felizes.

Boa pergunta, obrigada! Se não tivesse perguntado eu esquecia de explicar… ;)

Sim, daqui a pouco respondo a tal pergunta que afinal tem se mostrado mais frequente, risos, estão querendo saber sobre a ejaculação precoce!

Mas primeiro vamos a esta pergunta relacionada com o post abaixo sobre quando eu digo: «O que acontece é se duas pessoas adultas o querem e se estão preparadas para isso.»

Uma pessoa atenta – como disse não vou revelar nomes ou e-mails aqui – pergunta: Quando então o cliente pode “não estar preparado” para fazer sexo?

Sim, uma excelente pergunta, até porque a gente sabe, todo mundo ou quase todo mundo gosta de sexo.

Mas o que também devemos saber é que a gente não pode avaliar os outros – e os seus desejos e expectativas – apenas conforme aquilo que a gente pensa ou vive.

As pessoas não são iguais e por isso não gosto de generalizar, por essa razão adoro dar exemplos, porque só assim vocês podem perceber as outras realidades.

Então vamos a um exemplo… Imagine um homem que foi traído ou que cisma que foi traído pela esposa.

Conseguiu imaginar? Não, você não conseguiu imaginar… Pense melhor… Pense no quanto o homem é ferido com a traição… Pense no ego… Pense em como esse homem vai estar se sentindo… Pense no que ele imagina como razão para ter sido traído… Sim, pense, pense, pense, porque é isto o que faço quando estou com um cliente, pensar, reflectir, analisar. Claro, a minha vantagem é que no meu caso eu tenho o cliente à minha frente para me dar algumas respostas, enquanto a vocês ficam apenas as perguntas. Mas pensem…

Não é o “cliente-padrão”, mas já devo ter atendido uns dez que se encaixam nessa situação, apesar de claro, ainda assim as situações não serem completamente iguais porque cada um tem o seu histórico. 

Ele chega com um objectivo interno de se vingar da esposa, ou seja, ‘ah, ela me traiu e eu vou trair também, preciso fazer isso para me sentir melhor’. Mas vai se sentir melhor mesmo? É isto que eu, enquanto acompanhante, enquanto amante profissional e terapeuta sexual tenho que descobrir.

É muito fácil pensar que sim ou pensar que não sem analisar todos os factores. Há pessoas e pessoas e cada uma tem a sua história, e eu posso até estar com vontade de fazer sexo com ele, mas não poderei fazê-lo se não sentir que é esta realmente a sua vontade e que isso vai lhe fazer bem.

Porque, usando esse exemplo do homem que foi traído, pode ser que eu esteja com um que sim, isso resolva o problema dele – falando psicológica ou moralmente – e há casos em que o homem – principalmente se ele nunca tiver traído a esposa, se for apaixonado por ela e talvez nunca nem olhado para outra mulher – vai se sentir péssimo depois, vai sentir que fez a coisa errada ao procurar uma acompanhante em função da traição da esposa.

Eu sei que muito homem pensa que deve mostrar que é homem, que não pode ter amigas que não possa ir com elas para a cama, que deve fazer sexo com qualquer coisa que tenha saia, não respeitando nem aos padres, risos… Mas ao contrário do que pensam, há homens que não são assim! Há homens que têm sentimentos e que não deixam de ser homens por causa disso, aliás, para mim um homem que não tem sentimentos nem é homem, mas um bicho qualquer.

Imagine então, para piorar ainda o cenário, que este homem que acha que foi traído depois descobre que afinal não foi, que foi apenas uma cisma da cabeça dele?

E claro, há aí também outro detalhe: ele está me procurando mas não por mim, mas em função do que lhe aconteceu com a esposa, ou seja, o foco não sou eu, é ela, e ao invés de estarmos os dois na cama, a sensação será de estarmos três ou quatro (eu e ele, a esposa e o tal amante da esposa).

Fazer sexo com ele podia ser fácil, era só abrir as pernas. Ele tanto poderia seguir apenas o seu corpo e ter a ejaculação comigo, como também poderia estar com a cabeça lá na esposa – e por isso perder a erecção – e sair frustrado porque afinal não conseguiu “trair de facto” (rs).

Mas eu não vou pelo caminho fácil. Eu vou pelo caminho que entendo como certo, aquele que poderá ser bom para mim e para ele. Amanhã a gente não pode voltar atrás e corrigir o que fez de errado ontem.

Essa é a segunda pergunta que recebo – a primeira é igual à terceira, por isso vou deixar para responder tudo junto – acho que é sobre a parte em que digo na reportagem sobre o tal cliente com quem não faria sexo, ficando apenas a conversar, e antes explico que é uma opinião e postura minhas.

Quando falava sobre isso na reportagem, explicava que o sexo não é uma obrigatoriedade, o sendo é prostituição.

Para quem está acostumado a frequentar bordéis e casas de convívio é habitual se pensar que é obrigatório o sexo, quando não é. O que acontece é se duas pessoas adultas o querem e se estão preparadas para isso. Além do mais, tudo que é obrigação perde a graça, pelo menos para aquele que é “obrigado”, e sexo feito entre menos de duas pessoas é masturbação.

P.S.: Ainda estou online, podem continuar mandando as perguntas. Salve o teclado, vai precisar de lubrificante… ;)

Explicando o que aparece no fim:

Quando digo da sensação do corpo a rasgar estou falando da diferença entre prostituição e acompanhamento, o número de clientes que se atende num mesmo dia. Explicava para a jornalista que o problema para uma prostituta não é a vagina, porque, depois de várias penetrações, para a vagina há o gel que pelo menos ajuda dando lubrificação… mas o resto do corpo – e o emocional – depois de tantos toques, tantas mãos e bocas, um puxa dali, outro aperta, outro chupa… isso é o que é mais difícil para uma prostituta, a resistência.

Continuem me mandando perguntas, aproveitem que estou online, estou separando as perguntas para ir dando as respostas.

TSF: 1- Sobre a reportagem

Março 28, 2008

Muita coisa para comentar, não sei por onde começo.

Para começar a minha avaliação sobre a reportagem. Gostei porque a jornalista colheu muitos depoimentos. Não gostei de algumas coisas, mas no geral gostei de muitas, inclusive gostei da opinião de pessoas como a Ana Lopes, Inês Fontinha, etc.

É como eu falei antes lá no blog, uma pessoa ter uma opinião diferente da minha não quer dizer que isso anule o que ela viveu ou sentiu, e eu respeito todas as opiniões, inclusive quando sou contra, risos. E claro, quando dou uma opinião contra estou dando apenas a minha opinião, cada um sabe da sua vida e do que é melhor para si. A sua verdade é verdade para si enquanto a minha verdade é verdade para mim. Eu não posso viver a sua verdade assim como você não pode viver a minha , porque cada um é dono dos seus próprios sentimentos.

Conversei mais de uma hora com a jornalista, pequenos trechos encaixados entre os temas não dão por vezes nem para dar a ideia do que afinal estou falando, por isso depois, de acordo com as perguntas recebidas vou dando esclarecimentos.

Notei um foco “na parte ruim da actividade” e também na “legalização da prostituição”, mas pronto, no geral teve depoimentos que gostei.